Sustainability Knowledge Lab

Editorial Outubro 2012

O Sustainability Knowledge Lab (SKL)

“A cidade já não é possível sem o automóvel, a cidade já não é possível com o automóvel”.

Esta frase emblemática caracteriza a relação entre a cidade e o automóvel como um beco sem saída, uma relação de impasse, um problema circular sem solução. A generalidade dos termos – cidade e automóvel – mostram que o problema não é só local mas global. E a ligação do automóvel à cidade é de tal modo natural que são raros os estudos sobre as cidades que o focam como objecto central ao entendimento e significado do ambiente construído. E é o movimento crescente de bicicletas que, povoando a paisagem urbana, oferece alteridades que convidam a repensar a cidade, o próprio automóvel e, acima de tudo, a nossa qualidade de vida associada ao modo como nos relacionamos com o território que habitamos.

O automóvel, ao nível económico, lidera sectores icónicos da indústria e, por isso mesmo, ao nível político tem maior poder de influência nas decisões sobre o ordenamento do território; na relação com o espaço subordina, organiza e constrange todos os modos de mobilidade (seja a bicicleta seja o andar a pé) bem como as brincadeiras das crianças (pelo espaço que na rua ocupa uma vez que passa 80% da vida útil parado); ao nível social, é promotor de status o que, do ponto de vista cultural, o tornou um símbolo tanto da liberdade invididual como do desejo colectivo. Explicada a quase simbiótica relação entre o automóvel e o ambiente construído falta agora o fulcro controverso de toda esta questão, os recursos naturais consumidos bem como a poluição gerada em todos estes rituais de mobilidade tecnológica motorizada.

Ora toda esta idealização da cidade, e da vida por inteiro, assenta então na inquietude epistmológica do termo “sociedade de risco” que caracteriza a forma de lidar com o acaso e as inseguraças introduzidas pela própria modernidade. Correr riscos é o elemento central da dinamica económica mas, face aos efeitos negativos, a inovação no conhecimento e domínio desse risco é que é cada vez mais determinante.

A década de 80 convive com o aumento exponencial do automóvel enquanto assiste à emergência do ambientalismo e à produção marginal do imaginário de aventura com a invenção de um modelo robusto de bicicleta que se adapte ao re-encontro com a natureza. É na montanha a bicicleta se “salva” e, literalmente, se afasta do significado utilitário no uso da mobilidade urbana. Depois de um século de existência a bicicleta cumpriu um ciclo, oriunda do lazer aristocrático está agora no lazer de massas lutando para ocupar o lugar que já teve na mobilidade pessoal. É também na margem que a inovação acontece e se produzem modelos versáteis como a minha bicicleta Brompton que desdobra o campo da adaptabilidade da bicicleta à combinação com todos os outros meios de transporte público.

Quem não tem uma história sobre a bicicleta? Mesmo que a história seja nunca ter consigo aprender a andar não deixa, por isso mesmo, de ser uma singularidade biográfica. Largar as rodinhas ou a mão que nos ampara o selim é um acto que tem tanto de libertação como de fé. Este afastar do controlo familiar é a antevisão de outros momentos de independência pessoal na qual, perante a incerteza no domínio do caos, a dúvida é o grande desafio no salto para o desconhecido. Anos mais tarde, é também um salto de fé a decisão de usar a bicicleta no transporte diário para o trabalho e, lembrando a infância, sorrimos perante o desafio que se tornou fazer da estrada a nossa rua.

Ana Santos