Tempos de Glória

Tempos de Glória 

Os tempos de publicação desta imagem da Glória são, aqui e agora, um avulso de possibilidades de entendimento da corrida que está para além da apresentação cronológica dos seus feitos e conquistas.

Esta é a página da Revista Stadium publicada em 1926 sobre a corrida da Subida da Glória. Este é o registo de momentos de glória das corridas que em Lisboa se faziam nas primeiras décadas do século XX. No meio da multidão está Gil Moreira (1907- 1988) a quem esta corrida marca e lhe acentua o desejo de ser ciclista. É trabalhando como marçano que, com 11 anos vindo órfão para Lisboa, vence na vida e irá cumprir o sonho de ser ciclista e correr com os melhores da época. No ciclismo foi corredor, director técnico da equipa da Iluminante, um dos primeiros projectos de equipa empresarial existentes em Portugal, director desportivo do Águias de Alpiarça (1958), jornalista que acompanha os eventos de ciclismo, entre eles a Volta a França (1946), fundador da SIBAL (1947), escreveu em 1964 o ABC do Ciclismo, um ensaio pedagógico de técnica e táctica de ciclismo e, como epílogo de história de vida, a obra de referência chamada A História do Ciclismo Português. Pelo meio ficam outros escritos e são as narrativas publicadas na Bicicleta, no Tiro Civil e no Sport Nacional que o incentivam a contactar com familiares e ciclistas desse tempo que, prontos para darem o seu testemunho, lhe oferecem outras histórias que ele próprio colige e que anos mais tarde servirão também para ilustrar as suas próprias crónicas no Mundo Desportivo, no Diário de Notícias e no semanário O Debate.

Em 2006, seguindo as pistas de Gil Moreira num trabalho de exploração de fontes para entender a profissionalização do ciclismo português, encontro este registo fotográfico da subida e, cinco anos mais tarde, a imagem é publicada no livro sobre a Volta a Portugal em bicicleta. A imagem é refeita de significado e é evocada para ilustrar um texto sobre a génese do espectáculo desportivo e comercial e, na fotografia, para mostrar o valor da multidão no reforço emocional da mensagem transmitida. Fotografada, a multidão é também um espectáculo, impressiona visualmente, é a objectivação da causa, seja ela qual for. Uma ideia prenhe de significado na necessidade política da afirmação autoritária dos movimentos nacionalistas, que viram na multidão a possibilidade de tornar objectiva a ideia de comunidade, e no espectáculo que ela representa a celebração de si própria, estabelecendo um paralelo com o papel desempenhado pela liturgia na religião. Actualmente, explorada a ideia para a produção televisiva, não faltam exemplos de cenários criados nos quais, na celebração espectacular, o ambiente criado chega a ser mais importante que a causa em si.

Quando este ano se conseguiu, sob apoio da SEJD, realizar a ICHC no Museu do Desporto que agora reside no Palácio Foz, colado à calçada da Glória, veio de novo à memória a imagem anos antes publicada. Volto à BNL à procura desse mote e eis que dou com os jornais desportivos das primeiras décadas em muito mau estado, a desfazerem-se, interditos à leitura. À falta de melhor pega-se então na foto da página do livro e de novo se lhe altera o sentido e, em pouco tempo, é o mote perfeito para convencer os parceiros institucionais a dar apoio à ideia extravagante de, na calçada, repetir o feito da corrida.
E, dito e feito, de novo a imagem circula e pegando nela a Matilha Cycle Crewtransformou-a no cartaz que agora anuncia a corrida de 2013. Um design que nos confunde porque a tecnologia criativa consegue o presente parecer passado; é, também por isso, uma obra prima porque consegue baralhar todos os tempos que na imagem se cruzam e misturam.
É este poster que ficará como memória futura, é esta imagem que detém o poder transformativo do tempo. E apesar de serem hoje outros tempos é a multidão que ditará o sucesso do evento e dará visibilidade à agenda em causa: levar para o espaço publico a reflexão histórica sobre o valor do património desportivo; dar visibilidade à causa da bicicleta para em Lisboa termos menos auto-estradas e mais ruas; e, ainda, devolver à cidade a festa do ciclismo menos ligado a quadros competitivos federados e mais a jeito de nos levar a todos à Glória!
   Ana Santos